Sorcery tem lore? Curto: tem, mas não onde você está esperando. Não tem livro oficial, não tem novel, não tem site canônico explicando "isso aconteceu, depois aquilo". Quem quer narrativa precisa ir pra dentro das cartas — flavor text, arte, nome, conexões entre cartas diferentes. Esse artigo organiza o que dá pra extrair lendo entre as linhas.
"Lore is up to the players. Whatever you find narratively within the story, that's your thing. Make it yours. That's kind of the point." — Erik Olofsson, criador do Sorcery
Essa é a filosofia oficial. Erik veio do mundo dos videogames (foi co-fundador da Grinding Gear Games e diretor criativo de Path of Exile) e fez questão de evitar o modelo MTG moderno em que tudo é resolvido em romance e cinematic. A referência declarada é o Magic dos anos 90 — quando ninguém te contava a história, você lia o flavor text de uma carta, depois lia o de outra, e quando percebia que era o mesmo personagem aparecendo de novo, vinha o momento eureka. Outro paralelo que circula é com o Legend of Zelda original: a graça era reparar nas coisas.
A fundação é mitologia e história humana real
O que está nas cartas até agora não é um universo original ao estilo Magic ou Riftbound. É o nosso mundo, reorganizado em camadas mitológicas. Dá pra mapear cada set a um período/tradição:
- Alpha / Beta — bedrock. Estabelece geografia (Midland, Unland, Highland, Fireland), elementos (Air, Earth, Fire, Water) e referências amplas: as forças Saracen, navegação (Magellan), vulcanismo (Vesuvius), mitologia geral.
- Arthurian Legends — a matéria arturiana inteira. King Arthur, Queen Guinevere, Sir Lancelot, Sir Galahad, Camelot, Excalibur, Morgana le Fay.
- Gothic — figuras históricas reais (Grigori Rasputin, Jack the Ripper), tradições católicas (Candlemas), gótico literário e camada Lovecraftiana abertamente declarada (Yog-Sothoth, Eldritch).
O fio condutor que aparece quando você compara as cartas é a divisão entre o que é documentado e verificável (Magellan, Rasputin, Candlemas, Vesúvio, Ashkelon, etc.) e o que é esotérico ou mitologicamente adjacente (Yggdrasil, esfinges, manticoras, ocultismo, Atlantis). As duas camadas convivem no mesmo realm.
Conexões entre cartas que só aparecem se você olhar com atenção
Esse é o jogo paralelo da lore de Sorcery. As artes conversam entre si, e a história começa a aparecer quando você junta os pontos:
- Cloud City + Wrath of the Sea + Great Drowning of Men. Wrath of the Sea e Great Drowning of Men compartilham dois elementos visuais que apontam pra mesma cena: o mesmo monstro marinho colossal (em Wrath of the Sea dá pra ver os olhos aquosos e dentes na crista da onda) e a mesma arquitetura medieval de vigas de madeira aparentes (estilo "enxaimel"). A leitura do Charlie: as duas cartas representam o mesmo evento, do mesmo lugar. E a conexão com Cloud City é puramente causal — a conjectura é que Cloud City levitou como reação a essa calamidade marítima.
- Askelon → Crusade, Jihad, Abundance. Askelon (variante histórica de Ashkelon) é cidade real no Israel moderno, fortaleza Fatimida usada como base de raids contra Reinos Cruzados. O Steppe Curio de Truitt Parrish é a arte original da qual Crusade e Jihad foram derivadas — provavelmente representando uma das batalhas entre forças Cruzadas e Fatimidas. A mesma cidade aparece como Abundance (Vincent Pompetti), agora em tempo de paz, próspera e hub comercial. A jovem fênix vermelha em Abundance é provavelmente a mesma fênix do Askelon — com penas pretas nas asas, símbolo de transformação profunda (morte que precede ressurreição). A criatura provavelmente está enredada na Clash of Fates.
- Antikythera mechanism = Kythera Mechanism in-game. O Antikythera é um artefato histórico real, achado em 1901 num naufrágio romano perto da ilha grega de Antikythera. Considerado o primeiro computador analógico do mundo, conseguia prever eclipses lunares e solares décadas no futuro. A Erik's Curiosa pegou esse objeto e colocou de cabeça pra baixo dentro do jogo (arte de Séverine Pineaux) — sugerindo que o mecanismo pode estar nas mãos erradas ou em lugar errado.
- Atlas Wanderers ≠ homenagem. É referência direta ao Path of Exile. No PoE — jogo que Erik dirigiu antes de Sorcery — o Atlas device é onde o jogador insere "mapas" pra abrir portais ao desconhecido. Em Sorcery o Atlas deck faz papel análogo: avatares moldam sites com a mente, e o jogador molda o deck pra afinar estratégia. Erik confirmou parcialmente esse paralelo na Sorcery Con 2026.
- Star-seeds of Uhr. O nome carrega a chave: Uhr em alemão significa relógio / hora. As esferas seriam então componentes inoperantes de um mecanismo cósmico de timekeeping. O flavor text reforça: "a unique magic mourns a long lost past. For each layer of ruin excavated, another calamity of Yora was revealed" — e a leitura do Charlie é que Yora não é uma pessoa nem entidade; é o mesmo conceito que Uhr (dispositivo de timekeeping), só com outra grafia/raiz. Brian Smith pintou a arte original em 2022, antes mesmo de saber que viraria carta, e descreveu a figura como "cosmic giant olhando o espectador com curiosidade".
Hierarquia angelical e demoníaca: Gothic é explícito
Com Gothic a Erik's Curiosa parou de sugerir e começou a nomear. Existem cartas que correspondem 1:1 a entidades da tradição cristã/oculta, com função narrativa específica:
Lado celestial (hierarquia angelical clássica):
- Seraphim — o mais alto coro angelical.
- Cherubim — anjos que intercedem.
- Thrones — encarregados da justiça.
Lado infernal (hierarquia demoníaca, cada um governando um pecado capital):
- Mammon — ganância material, desejos terrenos.
- Asmodeus — luxúria e wantonness (irreverência sem consequência).
- Beelzebub — gula. E aqui aparece a leitura mais ousada: o Pudge Butcher é o Beelzebub. Outro apelido de Beelzebub é "Senhor das Moscas" — irônico pra criatura imóvel como o Pudge.
- Baalberith — aparece na carta Orb of Baalberith. Baal = "lord/god", Berith = "covenant" (pacto). Apoio mecânico: a Orb cria simulacros de magias castadas.
E acima de todos, Mephistopheles — provavelmente uma releitura direta do Faust de Goethe. O personalismo do diabo em forma humana, civilizado, que conversa de igual pra igual com Deus e troca a alma do homem por algo (poder, conhecimento, tempo). Detalhe importante que Charlie levanta: na tradição cultural (não no jogo), Mephistopheles acumulou epítetos como "King of the Crossroads", "Devil in the Mirror" e "Mirror Demon" — é por essa ponte mitológica que ele se conecta diretamente com o próximo ponto.
Mirror Realm: portal aberto por sacrifício em massa
Mirror Realm é uma das cartas mais estranhas do jogo. A leitura que tem ganhado tração na comunidade é que o espelho é literalmente um portal. Várias tradições xamânicas e ocultas tratam espelhos exatamente assim — algumas culturas cobrem espelhos e janelas durante os ritos finais de alguém prestes a morrer, porque acreditam que a alma pode ser "presa" no espelho na transição.
Um artigo do Zygon Journal of Religion and Science (1989) coloca: "alguns espelhos são usados psicodinamicamente como portais, e sua convergência ocorre na junção entre realidades ordinária e não-ordinária". A tese in-game: se a morte de um animal pode (segundo a crença popular) abrir um portal em um espelho de tamanho humano, quantas almas seriam necessárias pra rasgar um espelho do tamanho de um realm? A resposta proposta: uma quantidade colossal de almas sacrificadas — uma black mass, um sacrifício de magnitude bíblica. Era o que faltava pra "a era de trevas" começar.
Não é "good vs evil": múltiplas facções com agendas próprias
Esse é o ponto narrativo mais importante de toda a estrutura. A lore de Sorcery não opera no esquema bem vs mal. Existem várias forças hostis aos mortais, e elas também competem entre si. Cenários interessantes que isso destrava: uma facção maligna luta contra outra; uma força não-benevolente acaba auxiliando os mortais por interesse próprio; o que parecia o "vilão final" descobre que tem coisa maior atrás.
As principais facções identificáveis nas cartas até agora:
- Undead — presença forte em Gothic, com pontes em Alpha/Beta.
- Demônios — hierarquia explícita (Mammon, Asmodeus, Beelzebub, Mephistopheles).
- Eldritch / Great Old Ones — registro Lovecraftiano canônico, com Yog-Sothoth nomeado.
- Forças celestiais / cósmicas — uma camada cujas cartas estão começando a aparecer (Silver Bullet, Atlas Wanderers, Star-seeds of Uhr).
Conjectura concreta que ilustra a complexidade: "e se manter os undead em pé estivesse impedindo os Great Old Ones de voltar, porque não sobra energia vital suficiente? Aí, paradoxalmente, eliminar os undead seria a chave pra trazer os Great Old Ones de volta." Não é canônico — é o tipo de leitura que o jogo deixa aberto.
Yog-Sothoth e o Eclipse: a porta dos Eldritch
Aqui Sorcery se compromete abertamente com Lovecraft. Yog-Sothoth não é referência sutil — é o próprio guardião do portal do Mythos. A citação canônica do Lovecraft (que vale a pena ter em mente lendo as cartas do entorno):
"Yog-Sothoth knows the gate. Yog-Sothoth is the gate. Yog-Sothoth is the key and guardian of the gate. Past, present, future, all are one in Yog-Sothoth."
A leitura que tem ganhado tração é que o Eclipse (que aparece visualmente em várias cartas) é o evento que abriu esse portal. Eclipse = alinhamento de corpos celestes. E pra uma superinteligência cósmica como Yog-Sothoth, "o alinhamento de corpos celestes não é uma questão de onde, mas de quando". O Eclipse seria o relógio acertando a hora certa pra Eldritch monstrosities encontrarem o caminho até o Mortal Realm.
Silver Bullet: o omen termodinâmico
A Silver Bullet (promo recente) tem ganhado leitura como um marco narrativo. Duas observações sobre a arte:
- A reação visual é claramente exotérmica — calor, luz, fricção atmosférica. Isso é compatível com a assinatura de um objeto entrando na atmosfera, não saindo.
- Compare com Nama Monitor: criatura alien-looking, mas com palmeiras no canto da arte. Ou seja, a criatura está aqui, na Terra, não no espaço de origem.
Junto, isso sustenta uma tese de campanha: "não vamos pro espaço — o espaço vem até a gente". A Silver Bullet seria a sinalização explícita de que o jogo entrou na fase em que o cósmico começa a invadir o mortal realm. E uma vez aberta essa porta narrativa, ela não fecha (é o problema do "you can't put it back" que Marvel/DC tem batido cabeça desde Dark Phoenix Saga).
Há ainda uma leitura secundária: se os mortais conseguirem triunfar sobre uma das forças do mal, esse próprio triunfo alerta o resto do cosmos da existência do Mortal Realm. O silêncio que toma o lugar do barulho seria mais barulhento que o barulho original. Quem está observando?
Captain Baldassare: o primeiro personagem original?
Até agora a Erik's Curiosa construiu o realm quase inteiramente com figuras reais ou mitológicas da nossa história. Em algum momento isso vai mudar — e a aposta é que Captain Baldassare seja o primeiro personagem totalmente fictício a aparecer.
Tem uma conjectura especulativa sobre por onde a inspiração veio: paralelos com Davy Jones (do folclore marítimo, não o Pirates of the Caribbean per se), via uma figura Marvel chamada Joost van Straaten — marinheiro seduzido por Mephistopheles a navegar numa tempestade em busca de tesouro, perde tripulação e navio, vira a base mítica do Davy Jones. Tem também eco de The Rime of the Ancient Mariner de Coleridge. É reach, e quem propõe a leitura admite que é reach — vale como possibilidade, não como cânone.
O dado mais interessante por trás disso é que Captain Baldassare seria o vetor através do qual o realm começa a se descolar da história humana real e a ganhar mitologia própria.
Pra onde a história provavelmente vai
Paralelo Path of Exile
O dado de bastidor que explica boa parte do ritmo da lore: Erik dirigiu Path of Exile por anos. PoE começou como sucessor espiritual de Diablo — gótico, dungeon, sombrio, mas local. Foi adicionando camadas cósmicas/celestiais/extra-terrestres ao longo de anos, de forma deliberadamente paciente. A aposta é que Sorcery vai operar com a mesma cadência: "organic evolution, patiently implemented".
Isso é coerente com o ritmo público — Erik declarou pelo menos 7 sets planejados e o ritmo é de 1 set por ano. Há muito chão pra explorar mitologia humana (Hyborian Age de Conan, Atlantis, Norse) antes da Erik's Curiosa precisar partir pra material totalmente original ou pra outros planos.
O paralelo MTG e a aposta no próximo set
Uma observação que tem rolado: a sequência de sets de Sorcery rima com a sequência clássica do Magic dos anos 90. Se essa rima continuar:
- Arabian Nights (MTG) ≈ Arthurian Legends (Sorcery) — mitologia regional/folclórica.
- The Dark (MTG) ≈ Gothic (Sorcery) — fase sombria, demônios, ocultismo.
- Ice Age (MTG, a próxima da sequência) ≈ próximo set de Sorcery?
Se a aposta se confirmar, o próximo set teria matriz nórdica (Odin, runas, mitologia germânica/escandinava). Tem suporte indireto: a carta demonic contract já lista runas como objeto de sacrifício; surgiu uma teaser art recente que poderia ser um avatar com mecânica de runas (Erik é conhecido fan declarado de Diablo II, cujo sistema de Rune Words é icônico).
Tem sinal concreto nessa direção: a Erik's Curiosa anunciou Frost Mage vs Lavamancer, dupla de decks pré-construídos com dois Avatares novos pintados pela Melissa A. Benson, estreando em 13 de novembro de 2026 no Avatar of the Realm (Boston). O Frost Mage — capuz azul, lobo, floresta nevada, "winter inevitable" — encaixa direto na imagética Ice Age/nórdica.
O símbolo do set é "(vs)", então tecnicamente isso ainda é precon dueling, não a coleção principal. A próxima coleção principal não foi anunciada. Mas faz sentido tratar o precon como pavimentação — os Avatares, mecânicas e elementais introduzidos aqui geralmente reaparecem expandidos na coleção seguinte. E aí o tema pode ser mais largo que só Ice Age: a Melissa Benson mencionou direcionamento egípcio, há um viking longboat visível atrás dela no anúncio, e a comunidade já especula que isso vira mistura egípcio + nórdico + Lovecraftian (múmias, faraós e os horrores que "habitam sob as pirâmides" se encaixam no padrão Yog-Sothoth/Eldritch que Gothic estabeleceu).
Conclusão prática: o eixo Ice Age/nórdico está confirmado via Frost Mage, mas a coleção principal de 2026/2027 provavelmente vem mais larga que só isso. Detalhes do que se sabe até agora no artigo completo sobre Frost Mage vs Lavamancer.
Há ainda uma leitura alternativa pra próxima coleção principal: Journey to the Center of the Earth. Eric mencionou em entrevista com a Team Covenant que "pelo menos uma das coisas mencionadas" (dinossauros, jornada ao centro da Terra, romance planetário) vai aparecer no próximo set. A teoria usa o mapa do Polo Norte feito por Mercator no século XVI (que mostra um "vórtice" central e uma rocha magnética enorme, hoje inexistente nos mapas) como apoio: o Polo Norte foi historicamente apontado como uma das entradas pra Agartha, a cidade subterrânea da tradição esotérica. E o Livro do Apocalipse fala diretamente do "poço sem fundo" selado por mil anos.
Como começar a explorar por conta própria
- Leia o flavor text. É a coisa mais simples e mais usada pela Erik's Curiosa. Quando duas cartas se referem ao mesmo personagem em flavor texts complementares, ali tem narrativa.
- Olhe a arte completa no Collector Arthouse. Sem moldura dá pra perceber composições, personagens recorrentes e dicas visuais.
- Compare cartas do mesmo nome em sets diferentes. Mudanças entre versões muitas vezes sinalizam algo narrativo — foi o que destacou os Curios de Beta como cartas de amor ao Kickstarter do Alpha.
- Procure o personagem histórico real. Quando aparece um nome (Rasputin, Magellan, Vesúvio, Ashkelon, Mammon), ler a história real do referente costuma esclarecer escolhas mecânicas que pareciam aleatórias.
Fontes que ajudam a aprofundar
A maior parte da leitura compilada acima vem de vídeos do canal Sorts of Sorcery (Charlie) — atualmente a referência mais consistente em conteúdo dedicado à lore de Sorcery em inglês. Vale assistir os três principais:
- Charlie no Eternal Durdles — entrevista de ~50 min, contextualiza a filosofia da Erik's Curiosa e o paralelo Path of Exile. Boa porta de entrada.
- Mythos and Mystery — ~30 min. Foco em arqueologia visual das artes: Cloud City + Great Drowning, Ashkelon nas Cruzadas, Antikythera invertido, Atlas Wanderers como referência a Path of Exile.
- The Lore of the Mortal Realm — ~40 min. Foco em leitura teológica: Mephistopheles, hierarquia de demônios (incluindo Pudge Butcher = Beelzebub), Mirror Realm como portal, Yog-Sothoth, Silver Bullet como omen, aposta pro próximo set.
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